quarta-feira, novembro 30, 2005

As relações interpessoais e a sociedade da informação

A discussão em torno da revolução digital e da alteração nas relações sociais que esta proporcionou tende a assumir uma visão demasiado simplista e, na maior parte das vezes, nostálgica.

A tecnologia é ainda considerada, por alguns autores, uma amarra ao desenvolvimento das relações humanas e isolamento do indivíduo. A vida moderna é, para estes, espelho da deterioração tanto da relação como dos valores humanos. O isolamento cresce paralelamente ao sofrimento e opressão e frieza da tecnologia.
De acordo com Dimitrius e Mazarella
[1]o contacto que a tecnologia nos permite com pessoas do outro lado a cidade, país ou o mundo perde muito do seu valor por não ser pessoal. Os mesmos avanços que nos permitem um acesso facilitado aos outros, fizeram com que as conversas face-a-face sejam cada vez em menor número relegando à palavra um papel estéril e gerada electronicamente, sem o benefício de ver a pessoa ou falar directamente com ela.
A verdade é que o avanço das tecnologias de informação e comunicação fez surgir novas formas de interacção humana. Este desenvolvimento superou limites impostos, anteriormente, pelo espaço e pelo tempo e isso, trouxe, de facto implicações para a comunicação interpessoal.
O anonimato da sociedade moderna e a busca por novos vínculos de solidariedade foram aspectos fundamentais no desenvolvimento de comunidades virtuais e de uma esfera social “digital”. Esta comunicação que se desenvolve supera a dimensão de conveniência/eficiência para se tornar uma necessidade e uma nova forma de dimensão social onde são superados os limites convencionais do tempo, espaço mas também de certas barreiras psicológicas intrínsecas ao indivíduo. A liberdade alarga-se, a possibilidade de relações sociais cresce e rompem-se, aparentemente, os vínculos de classe e origem. O imaginário e o intelecto impõem-se ás relações físicas. Em ferramentas como os chats encontram-se pessoas das mais variadas classes, valores e origens. Extrema-se, agora mais facilmente, a imagem do que projectamos ser ou queremos ser e o que somos verdadeiramente, o ser virtual e o ser real.
Esta possibilidade que é dada para a reconstrução do eu altera fortemente as relações sociais tal qual as conhecia. As máscaras sociais de que nos fala Erving Goffman
[2] adquirem uma outra dimensão, movem-se com outras regras e acarretam consequências distintas.
A primeira delas, consequência da perda do carácter pessoal e físico de muitas relações, é a criação de novas redes sociais que continuamente se formam numa sociedade cada vez mais fragmentada. Redes que nascem, desenvolvem-se e, muitas das vezes, circunscrevem-se ao plano virtual
Porém, se muitas das vezes estas relações se restringem ao plano virtual, outras há que nascem neste plano mas que se estabelecem e desenvolvem fora dele.
As novas formas de relacionamento que emergiram e continuam a diversificar-se não devem, por isso, ser olhadas com desconfiança. Da mesma forma que seitas e grupos terroristas se organizam, divulgam as suas ideias e promovem encontros via Internet, o mesmo acontece com movimentos humanitários e redes de solidariedade que vêm no meio uma forma de alargar o espectro de recepção da sua mensagem.
A tentativa de extremar uma posição relativamente ás consequências das Tecnologias da Informação e Comunicação é, assim, um erro a evitar. Em detrimento de uma reflexão mais aprofundada sobre a forma como se articulam, os novos serviços de comunicação em rede, com os espaços e lugares físicos, há uma tendência para polarizar aquele que se pensa ser o seu efeito não tendo em conta à complexidade da questão.
Robert Kitchin
[3]identifica duas posições antagónicas. Uma primeira que considera que os novos formas de comunicação alteram as relações do individuo com o próprio espaço, conduzindo à reconfiguração e diminuição da importância/relevância deste.. Uma segunda posição que encara estes novos espaços de comunicação como uma janela de oportunidade para ultrapassar constrangimentos do corpo e/ou centrar a comunicação na mensagem. Esta diferenciação verifica-se também relativamente ás comunicações mantidas entre indíviduos que já se conhecem através do espaço físico, e neste caso os novas formas de relacionamento surgem como um prolongamento dessa relação e muitas das vezes a forma mais viável e única de a manter. Permite, assim, a manutenção de laços de amizade que de outra forma se dissipariam devido à distância ou outro tipo de restrições.
Paralelamente estes novos espaços abrem a possibilidade de estabelecer contactos com grupos ou indivíduos exteriores ao círculo normal de relações.
Porém, há também que referir que há determinados aspectos em que se torna incontornável a existência de relações interpessoais, nomeadamente na gestão de um factor de extrema importância num relacionamento profundo e consolidado – a confiança e a reciprocidade. O face-a-face fornece um maior conteúdo informativo que situa mais claramente a relação. Só “…através da interacção pessoal é possível imergir na realidade do local, vislumbrar, através dos programas de significação (gestos, expressões faciais, inflexões de voz…), as pistas simbólicas baseadas na comunicação face a face”
[4] tão preciosas para legitimar uma interpretação.
Desta feita, pensar as relações interpessoais na sociedade da informação é reflectir sobre os diferentes planos e situações que formam a realidade (real e virtual. Pensar nas novas soluções oferecidas por um mundo em constante mudança, a gerar continuamente novas oportunidades que devem ser abordadas e potencializadas.
A mudança não é intrinsecamente boa nem má. A forma como tiramos partido dela é que dita a categoria em que a inserimos.
[1] DIMITRIUS, J. E. & MAZZARELLA, M. Decifrar Pessoas. São Paulo, Alegro, 17ª ed., 2000.
[2] Goffman, E. (1959). The Presentation of Self in Everyday Life. Doubleday.
[3] KITCHIN, Robert - Towards Geographies of Cyberspace. Progress in Human Geography. Vol. 22, nº 3 (1998), p. 385-406.
[4] O'BRIEN, Jodi, Writing in the body - gender (re)production in online interaction, in Communities in Cyberspace, editado por Marc A. Smith e Peter Kollock, 1ª ed., Londres: Routledge, 1999.

4 Comments:

Blogger Rui Marques said...

Muito bem. Para estar próximo da perfeição precisava de um maior cuidado na revisão do texto..

6:20 da tarde  
Blogger leland said...

Texto de difício entendimento que fala, fala... e não esplica nada. Com uma linguagem mais simples seria possível passar o mesmo conteúdo e de forma mais efetiva. O texto é bonitinho para quem o vê superficialmente porém ruim no seu contexto e concordância.

8:06 da tarde  
Blogger leland said...

Texto de difício entendimento que fala, fala... e não esplica nada. Com uma linguagem mais simples seria possível passar o mesmo conteúdo e de forma mais efetiva. O texto é bonitinho para quem o vê superficialmente porém ruim no seu contexto e concordância.

8:08 da tarde  
Blogger Aurora said...

Um dos problemas da relação virtual, além de perdermos tudo de bom que a presentificação nos oforece, é a possibilidade de propiciar relacionamentos fugazes. Excelente texto. Parabéns!!!

Abraço

Aurora B. Solimões

10:49 da manhã  

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